Vale à pena comprar de fornecedor tupiniquim ?

Postado por jsmoraes jsmoraes
Opções
Para resumo de história meu entedimento é: NÃO !

Antes do relato de minha saga e tragédia, devo alertar para o fato de que é prática comercial comum por parte dos fornecedores estrangeiros enviar aquilo que não pode ser vendido nos seus lugares de origem. Ou por estarem com defeito ou por não atenderem ao padrão de qualidade necessário para o mercado de origem ou norte-americano/europeu.

Acrescente-se o fato de que os nossos fornecedores tupiniquins são apenas importadores. E devido ao pequeno mercado evitam qualquer questionamento, crítica ou devolução de produtos aos fornecedores internacionais.
Afinal, eles precisam estar de bom grado para continuar com insignificantes regalias de representação ou preço de revenda.
E muitas vezes o direito do consumidor só tem efeito prático junto aos fornecedores tupiniquins via ações judiciais. Há resistência em aceitar devoluções de produtos comprados.

Embora por vezes os fornecedores tupiniquins se apresentem como conselheiros e cheios de boa vontade para explicar, aconselhar ou discorrer sobre as características de um produto, na verdade a relação comercial é bem menos comprometida.
São vendedores, e jamais irão falar mal ou alertar sobre dificuldades no uso do produto. Se limitam a repetir o discurso da propaganda dos fabricantes. Só disponibilizam reviews com pareceres favoráveis.

Infelizmente, sabendo disto tudo, ainda tinha na ideia que seria de bom grado termos fornecedores tupiniquins. E foi com esta falsa ideia que acabei me envolvendo em uma saga infernal.

E exatamente com esta falsa ideia iniciei o upgrade de câmera DSLR para mono-astro-câmera com a tellescopio.com.br . Preços caros devido as taxas de importação e cambio do dolar nos deixam com pouco escolha. Embora as ofertas também são de pouca escolha. A tellescopio só trabalha com QHY e ZWO.

Li reviews e acompanhei vários tópicos no fórum Cloudy Nights sobre duas opções: QHY163M e ASI1600MM. O que não sabia e não prestei atenção é que alguns reviews são pagos pelas empresas e muito dos discursos no Cloudy Nights são feitos por fã-club de tal ou qual fabricante.

Da ASI1600MM ainda vi algumas críticas e menções de que seus primeiros lotes apresentavam alguns problemas, que foram posteriormente resolvidos. Li também que a QHY "caga 3 quilos" para o consumidor, não dando suporte e nem atenção. Já a ZWO se apresentava bem mais amigável e humilde. Reconhecendo falhas, notificando melhorias, e efetuando troca de algumas unidades.

Tenho uma câmera ASI120MC que apresenta muito problema de sujeira no sensor devido à uma espuma interna e uma roda de filtro motorizada QHY com apenas inconveniente de ter interface RS232 e não USB. Seu cabo do lado da roda de filtros também é muito mal acabado, onde silicone protege seu rompimento do conector.

Email vai email vem com Israel da tellescopio recebi informações favoráveis à QHY. Israel parece ter uma aproximação maior com a QHY. Pelo menos foi os seus produtos iniciais de venda, pelo que me lembro. Só depois vieram a ZWO e GSO.
Acabei por concordar e encomendar uma QHY163M.
Já tinha comprado um corretor de coma da GSO com ele, já que o meu antigo está com as lentes bastante arranhadas.

Preço promocional na câmera para encomenda... atrativo irresistível. Grande ideia de marketing. E mais barata que a ZWO correspondente, já que ambas câmeras possuem o mesmo sensor.

E daí, começa minha saga tragédia.

Chegou o corretor de coma, que embora aja sobre o coma, o faz muito pior que o antigo. Seu uso ficou impraticável com o distanciamento utilizado na Canon T3. Mas como estava migrando para a QHY... e ela tem distanciamento muito menor do sensor ... é uma questão de tunagem deste distanciamento.

Nada ! Mero engano. Mesmo com a chegada da QHY e depois de mês brigando e tentando ajustar o distanciamento, efetuando uma nova compra também na tellescopio.com.br de espaçadores GSO para esta tunagem, nada ...

Acabei por descobrir que o corretor é composto de dois grupos de duas lentes coladas com cimento especial. Um dos grupos apresenta uma descentralização nas lentes. Ou seja, com deslocamento de eixo óptico entre elas. Pra mim, o real motivo do mau funcionamento.

Bom, corretor de coma GSO ... assunto encerrado. Lata do lixo ! Perdi 400 pratas nesta furada.

Agora, esperar pelos filtros LRGB e usar o velho corretor com lentes riscadas no conjunto com a câmera QHY.

Chegou os filtros. Tudo montado. Vamos aos primeiros ensaios. Câmera, roda de filtros, OAG e corretor de coma. O mesmo conjunto utilizado quando a câmera era uma Canon T3.

Iiiihhhh, o bicho pegou !

Um mês para descobrir que a péssima qualidade na forma das estrelas era devido a 3 fatores:

1) o sensor com pixeis muito pequenos é muito sensível à qualquer erro de óptica. A menor flexão causa uma grande distorção na imagem das estrelas. Briga ferrenha, onde por acidente tive queda do meu notebook com correspondente danos na fixação de sua tela. Monta, desmonta, testa distancia do corretor, não é o corretor, monta desmonta, testa flexão do focalizador ... nada resolvia.

Há males que vem pra bem.

Com a queda e prejuízo no notebook, parei, e decidi começar do zero. Camera-telescópio sozinhos, onde vi que não havia distorção da forma das estrelas. Camera-roda de filtro e OAG, também vi que não havia distorção significativa. E por final o conjunto inteiro, quando percebi que se montasse o conjunto colado na superfície do focalizador eu conseguia evitar que ao apertar os parafusos de fixação inclinasse a câmera. A tal flexão !!!!
O motor da roda de filtro impedia que este contato fosse feito. Girando 45 graus, onde os spikes das estrelas assumem também este ângulo, eu já conseguia o contato.

Ufa ! resolvido o problema. Tive prejuízo, mas o problema foi resolvido.

2) o sensor com pixies muito pequenos também é muito sensível a refração da atmosfera. Ou em outras palavras: seeing ruim ... imagem do formato das estrelas também ruim. E aqui eu não tenho como evitar ou intervir. Só me resta trabalhar com o tempo de exposição para obter uma integração das distorções, minimizando-as após o empilhamento de frames.

3)  o sensor com pixieis muito pequenos também é muito sujeito a falha na focagem. Principalmente no meu caso, a óptica do meu telescópio tem um pouco de astigmatismo, ovalando as estrelas quando o foco não é perfeito. Aqui é trabalho duro e minucioso. Mover com os dedos o focalizador ... mesmo no botão de 1:10 ... caramba ! Haja paciência. É questão de pentelhomímetro de giro.

Pra resumir: a QHY163M é como telescópio de abertura de 14 ou 16 polegadas. Não dá pra usar em qualquer dia e nem em qualquer lugar. Traduzindo: comprei a câmera errada para o lugar onde estou ! Quatro mil e bordadas de Reais sub-judice !

O que fazer ?

Aceitar o erro e tentar fazer o melhor possível para não jogar no lixo !

Bem, não ficou só nisso.
Se já não bastasse ainda me veio outro problema. A câmera possui possibilidade de conexão direta com roda de filtro QHY. E minha roda de filtro é QHY. De modelo mais antigo, uma geração anterior. Provavelmente dever funcionar. Ambas só possuem alimentação de 12 Vdc e Tx e Rx. Comunicação serial. A minha roda de filtros é serial RS232, e utiliza um modulo bluetooth-RS232.

A QHY não fala nada ! Só indica que a  conexão é de câmera QHY com roda de filtro QHY modelo XXXX. Montagem exclusiva, própria: QHY pra QHY.

Manda vir, o cabo. Baratinho, 50 pratas com frete. Menos cabo pendurado no telescópio, menos um ponto de problema e falhas... só facilidades.

Lendo o manual percebi que o conector da câmera fornecia 12 Vdc no cabo. E me preocupei com isto. Será que a minha roda de filtro aceitaria isto ?
Recebi o cabo, e tomei todas as precauções para averiguar a compatibilidade de cabeamento e alimentação. Após algumas medições com voltímetro, decidi que não alimentaria com 12 Vdc a roda de filtro. Iria verificar se o próprio cabo dava conta do recado. E deu.

Alimentou a roda de filtro, efetuou a movimentação inicial na centralização do primeiro filtro. Beleza ! Mas ... não efetuava a troca de filtro sob comando do aplicativo SGP. Mesmo tendo instalado os drivers ASCOM necessários e o SGP indicando que a roda de filtro estava conectada.

Bom, talvez uma diferença de protocolo de comunicação. A nova geração de roda de filtros teria uma linguagem diferente da minha. Sem problema. O cabo recém chegado vai pro lixo ! E voltamos ao que era antes. Com tristeza, pois o monta-desmonta já mencionado acima demonstrou que a montagem do conector era muito frágil. O silicone soltou e eu teria que ter muito cuidado com os fios, para que eles não se rompessem no interior do conector.

Só que ... voltado ao que era antes, com o módulo bluetooth, a roda de filtro também não mudava os filtros !!!!!

Putz ! Bem que eu suspeitava que poderia haver rompimento dos cabinhos no conector.

Mas, após muitos testes, medições de continuidade e até mesmo jumpeando dentro da roda de filtro (tive que desmonta-la para ter acesso ao circuito impresso) TX com RX e utilizando o aplicativo do bluetooth verifiquei que havia transmissão e recepção de dados. Não havia mau contato e nem rompimento de cabos.

Eliminado a possibilidade de mau contato ou interrupção da comunicação RS232 ... só me restou a conclusão: QUEIMOU A INTERFACE RS232 DA RODA DE FILTRO. Quem queimou ? A câmera ?

Bem, vejamos a quanto andamos nesta saga tragédia.

Corretor de coma, comprado e jogado no lixo.
Câmera, comprada e não jogada no lixo, mas de uso restrito. Vou ter que me virar com ela, pois foi muito cara.
Roda de filtro perdida, lixo !
Notebook, quebrado. Vou ter que me virar com ele até compra de outro.
Tive que retornar à Canon T3, já que sem roda de filtros ... mono câmera não tem grande utilidade.

Encomendei uma nova roda de filtro, agora manual já que motorizada queimada ... não tem como rotacionar os filtros, e vou ter que esperar uns 15 a 30 dias até chegar.
Lógico que não foi via tellescopio.com.br . Seria louco se o fizesse. Posso nem fazer uso, mas a loja europeia me mandou email com formulário para devolução se eu desistir de ficar com o produto num prazo de 14 dias ! Bem diferente da prática dos fornecedores tupiniquins. Não acham ?

O investimento nesta tragédia já chegou aos 7 mil Reais e não está computado o custo do notebook. Não mencionei antes mas tive que comprar licença do SGP para fazer uso da QHY. O aplicativo distribuído pela QHY é uma merdinha, até mesmo reconhecido por eles como ... fraquinho.
Não mencionei também que a QHY para funcionar com o Sharpcap precisa de um computador com performance exemplar, caso contrário a taxa de frames por segundo será de 2 à 4 frames !!!!!!!!!

3 meses nesta maldita saga ! Aborrecimentos, perda de sono, stress, angústia, frustração... e gasto de muito dinheiro.

Portanto, ainda estando atolado nesta lama maldita, só me resta dizer de alto e bom som:

NÃO COMPRE PRODUTOS DE FORNECEDORES TUPINIQUINS. NÃO TERÁS PRODUTO DE QUALIDADE E NEM TERÁS A GARANTIA PREVISTA PELA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA.